Domingo, 18 de Maio de 2008

O Cesário é poeta

Na longa sala abafada,
de velho chão,
cortinas rotas,
janelas fechadas,
abria eu o grosso livro
pronta a descobrir nele
um novo acumular de letras,
não melhores que as outras,
apenas diferentes.
Errei.
Conheci o grande Cesário
e num espaço de vinte minutos
envolvia-me já na sua escrita
como um cão se envolve inocente
no almofadado da cama.
Bebi cada letra pintada
cada palavra projectada na branca tela.
Já eu me sentia também um sujeito presente
no ambiente do Bairro Moderno,
e um construtor anatómico
na vulgaridade dos alimentos.
Já eu descia com ele
a rua coberta de cheiros,
em direcção ao emprego
agora, sem muita pressa.

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